O que a pesquisa em eficácia escolar ensina sobre liderança pedagógica, fatores intraescolares e transformação educacional
No último dia 04 de julho completou 60 anos da publicação do Relatório Coleman. Já tratamos dele aqui. Ainda que muitos educadores torceram o nariz para as importantes conclusões do relatório, é inquestionável que ele provocou uma enorme transformação nas pesquisas sobre fatores relacionados ao aprendizado dos alunos nas escolas, de todo o mundo. A chamada “Escola de Eficácia Escolar” ganhou muita força nos anos 1970 e várias pesquisas confirmaram os resultados gerais de Coleman, mas com importantes ressalvas para diferenciações regionais (as estatísticas mudavam em países com maior ou menor grau de desigualdades).
De qualquer forma, é clara a relevância dos fatores extraescolares no aprendizados dos alunos. Por isso mesmo, tornou-se cada vez mais necessária a busca por evidências de quais fatores “intraescolares” seriam mais relevantes, considerando o contexto de cada escola.
O que é uma escola efetiva?
Antes de falar sobre gestão, é preciso responder a uma pergunta fundamental: o que faz uma escola ser realmente boa? A resposta não é tão óbvia quanto parece. Uma escola localizada em um bairro de classe alta, com alunos que têm acesso a um nível diferenciado de diálogo com familiares e vizinhos, livros, internet, reforço escolar em casa, dentre diversas outras vantagens, tende a ter notas altas — mas isso não significa, necessariamente, que a escola seja efetiva. Boa parte desse resultado vem de fora dos muros da escola.
Por outro lado, uma escola em uma comunidade vulnerável, que recebe alunos com defasagem de aprendizado e consegue fazê-los avançar mais do que o esperado — essa sim é uma escola efetiva. É exatamente isso que diz a definição clássica dos pesquisadores da eficácia escolar, como Mortimore (1991), Scheerens (2000) e Sammons (2001):
“Uma escola efetiva é aquela em que os alunos progridem mais do que o previsto, consideradas as suas características sociofamiliares de origem. Portanto, uma escola efetiva agrega valor extra à aprendizagem de seus alunos, em comparação com outras escolas que atendem uma população semelhante.”
Em outras palavras: o resultado esperado é aquele condicionado pelo contexto — público-alvo, nível socioeconômico, entorno, cultura. O resultado extraordinário é aquele que a escola consegue gerar apesar do contexto. É quando os fatores intraescolares — gestão, liderança, práticas pedagógicas, clima escolar — têm tanto ou mais impacto do que os fatores extraescolares.
O Desafio Latino-Americano — Desigualdade como Ponto de Partida
Na América Latina, essa discussão ganha uma urgência especial. A região é marcada por desigualdades históricas profundas. Dados da UNESCO mostram que, enquanto alguns países avançaram significativamente na qualidade da educação básica, outros ainda lutam para garantir o mínimo de proficiência em leitura e matemática.
O Estudo Regional Comparativo e Explicativo (ERCE) da UNESCO revela que o nível socioeconômico das famílias ainda é o principal preditor de desempenho escolar na região. Mas há exceções importantes — e são essas exceções que nos interessam:
- Chile: É um dos países que mais avançou na profissionalização da gestão escolar. Desde a implementação do Programa Gestión Escolar de Calidad (atual Sistema de Aseguramiento de la Calidad – SAC), o país passou a exigir que diretores passem por processos seletivos baseados em competências. Escolas chilenas que implementaram liderança pedagógica estruturada mostraram ganhos consistentes em testes padronizados.
- Costa Rica: Investiu fortemente na formação continuada de diretores e supervisores, com foco em liderança instrucional e uso de dados para tomada de decisão. O país é frequentemente citado como exemplo de como políticas de médio prazo geram resultados sustentáveis.
- México: Implementou o Programa Escuelas de Calidad e a Estratégia Nacional de Mejora Escolar, que coloca o diretor como líder do projeto pedagógico. Escolas mexicanas que adotaram práticas de gestão baseadas em evidências mostraram redução da evasão e aumento da proficiência em até 15% em três anos.
- Brasil: O cenário é heterogêneo, mas há exemplos inspiradores. O Ceará é o caso mais emblemático: mesmo sendo um dos estados com menor PIB per capita do país, conseguiu, por meio de política consistente de gestão escolar, regime de colaboração entre estado e municípios e foco em liderança pedagógica, alcançar os melhores indicadores de alfabetização do Nordeste e superar a média nacional no Ideb nos anos iniciais.
Naturalmente que não temos apenas esses exemplos. Trata-se de um breve resumo. Cada unidade da federação brasileira poderá ter exemplos de escolas “fora da curva”. Porém, atuando nesta área por duas décadas e tendo conhecido bem de perto a evolução chilena, falta ao Brasil um real pacto da sociedade com a melhoria da educação. Estamos em mais um ano eleitoral e pouco de trata de forma clara e objetiva sobre educação, e em um cenário de claro apagão de mão de obra em diversos setores da economia, sendo que um dos apagões mais assustadores é o da formação de novos professores.
O que a Pesquisa Diz — Fatores Intraescolares que Fazem a Diferença
A literatura de eficácia escolar identifica fatores que, quando presentes, aumentam significativamente a probabilidade de uma escola ser efetiva:
- Liderança profissional do diretor: O diretor não pode ser apenas um gestor administrativo. Ele precisa ser o líder pedagógico da escola: estar presente nas salas de aula, acompanhar o planejamento dos professores e usar dados para orientar decisões.
- Clima escolar positivo: Escolas onde há respeito, confiança e altas expectativas em relação aos alunos tendem a ter melhores resultados. O clima escolar não é consequência — é condição para a aprendizagem.
- Foco no ensino e na aprendizagem: A escola efetiva tem o aprendizado como centro de todas as suas decisões. Tudo converge para uma pergunta: “Isso melhora a aprendizagem dos alunos?”
- Monitoramento sistemático do progresso: Não se gerencia o que não se mede. Escolas efetivas acompanham o desempenho dos alunos de forma contínua e intervêm antes que o problema se agrave.
- Parceria com as famílias: A escola que consegue envolver as famílias no processo educativo como parceiras da aprendizagem potencializa os resultados.
- Desenvolvimento profissional contínuo dos professores: A pesquisa de Viviane Robinson aponta que a prática de liderança que mais produz efeito sobre a aprendizagem é a promoção do desenvolvimento profissional docente.
O Papel da Liderança Escolar
O relatório UNESCO 2024/5 — Liderança na Educação é categórico: a liderança dos gestores escolares é um dos fatores-chave para a promoção da aprendizagem com equidade. A pesquisa de Roberto & Weinstein (2024) identifica sete práticas presentes no cotidiano de gestores de sucesso:
- Realização de reuniões coletivas e individuais com foco central no trabalho pedagógico;
- Observação de aulas seguida de devolutiva formativa assertiva;
- Postura acolhedora e comprometida com o trabalho pedagógico;
- Incentivo qualificado à participação dos docentes em cursos e formações externas;
- Escuta ativa e contínua dos estudantes;
- Uso sistemático de dados educacionais para subsidiar decisões pedagógicas;
- Atenção às famílias como estratégia de fortalecimento da prática escolar.
Como a Gestão Baseada em Evidências Gera Resultados
A gestão escolar baseada em evidências substitui o “achismo” por decisões informadas por dados e pela pesquisa acadêmica. O ciclo é composto por cinco etapas fundamentais:
- Diagnóstico: A escola coleta dados objetivos (desempenho, frequência, clima escolar, perfil das famílias).
- Análise: A equipe gestora interpreta os dados à luz da literatura de eficácia escolar.
- Planejamento: Define-se um plano de ação com metas claras, baseado em práticas que já demonstraram funcionar.
- Execução com monitoramento: O plano é implementado com acompanhamento sistemático.
- Ajuste de rota: Se algo não funciona, ajusta-se imediatamente. Não se espera o fim do ano para descobrir falhas.
O Essencial em Resumo
Sem gestão baseada em evidências: decisões por intuição, resultado explicado pelo contexto, professor isolado, escola reativa.
Com gestão baseada em evidências: decisões por dados, resultado explicado pela gestão, professor apoiado e desenvolvido, escola proativa.
Checklist para o Gestor Escolar
- O diretor atua como líder pedagógico, não apenas administrador?
- A escola tem reuniões pedagógicas semanais com foco em dados de aprendizagem?
- Os professores recebem devolutivas formativas após observações de aula?
- A escola monitora o progresso dos alunos de forma sistemática?
- As famílias são envolvidas como parceiras da aprendizagem?
- Há um plano de desenvolvimento profissional para a equipe docente?
- As decisões são baseadas em evidências, não em “sempre foi assim”?




